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Qual é o Remédio? Viver numa sociedade de risco tem cura?
Não se podem ler revistas e nem jornais nos fins de semana sem indignação. Procuro ler, ao menos nestes dias, mais do que as manchetes, para esquecer a rotina do pensar cotidiano dado pela profissão (médico, no meu caso). Mas o noticiário pode realmente te fazer tão mal, como a mim me fez neste sábado. Nas páginas amarelas da Veja (02/05/2007) li a entrevista de um colega psiquiatra afirmando que, se uma pessoa normal psiquiatricamente toma antidepressivo, será mais normal que os normais. Passei o resto da semana desconfortável.
Primeiro por querer saber se sou ao menos normal e, em sendo, se deveria tomar esta droga para ser mais “normal que os normais”. Porque normal ou não, eu sinto uma angústia que eu gostaria de ver resolvida. Será que tomando antidepressivo eu me curaria? Seria este o meu remédio? Nada concluí.
Nesta semana (5/5/2007), leio que o presidente Inácio quebrou a patente do Laboratório Merck Sharpe&Dohme num medicamento antiviral (o efavirenz) e que o Brasil iria comprar “cópias” indianas para economizar 30 milhões de dólares. Ele poderia também distribuir antidepressivos “cópias”, para nós os sofredores da classe media urbana paulistana?
Passei quase todo o fim de semana para entender que o primeiro fato era uma manifestação de disease mongering e acalmar-me um pouco. Mas com a atitude de Inácio perdi a normalidade e acho que terei de tomar um antidepressivo fabricado em algum lugar seguro, pois não confio em “cópias indianas”.
Resolvi escrever sobre o primeiro assunto para curar-me do mal-estar provocado pelo segundo. Ser normal em nossa sociedade é uma tarefa árdua. Confiar tem se tornado uma raridade. Desconfio do garoto que me pede esmola no farol, pois o noticiário de assaltos em jornais povoa meu inconsciente. Desconfio dos juizes, dos políticos e dos advogados que os defendem e que nos ameaçam por roubar a justiça. Desconfio de colegas que se vendem para quem quer vender remédios.
Sinto muitíssimo quando pessoas traídas me dizem não poder mais confiar em ninguém, nem mesmo em seus médicos. E esta falta de confiança agrava seu estado de saúde. Sinto-me em perigo em nosso mundo, principalmente, em nossa cidade, onde esta insegurança não é nova, mas está mais confusa.
As vidas cotidianas das pessoas comuns que conheço, ditas normais, estão cheias de desconfiança e perigo. E estes “sintomas” não são medicáveis com fármacos. Poucas pessoas no mundo podem continuar sem consciência do fato de que suas sensações, ideais e atividades locais são influenciadas, e, às vezes até determinadas, por acontecimentos ou organismos distantes de nós.
O impacto das influências da globalização e da destradicionalização que caracterizam nossa vida atual não são pequenos. A globalização nos conecta a um mundo alienígena e facilita a perda das tradições, o que por sua vez dificulta a manutenção de uma identidade, constantemente recriada. Nasci no interior do interior do Rio Grande do Sul, em uma pequena comunidade de 100 famílias judaicas, imigrantes da Polônia. Perdi grande parte das tradições gaúchas e muitas das tradições judaicas e polonesas. Perdi aquelas, e não sei quais novas adquirir. E para isto não há remédios.
Como médico o que percebo no cotidiano de minhas pacientes em relação a estes fatos é uma grande angústia. Observo uma falta de entusiasmo de crença em um projeto político, numa idéia, num ideal, numa causa. Eu não acredito mais em grandes mudanças, como as que acreditava ao sair do Rio Grande do Sul. Sonhar delirantemente o sonho de um mundo mais justo, mais igualitário nas questões sociais, econômicas, políticas, mais digno, menos consumista, enfim, num mundo onde as pessoas fossem mais felizes. Sonhava e acreditava não por ser ingênuo, mas porque tinha ideais.
Penso que minha missão, como médico e homem, é observar, analisar, teorizar e assim fazer a minha parte junto a vocês, colegas leitores, no sentido de construir um mundo diferente e melhor. Mesmo não tendo respostas aos meus questionamentos, sei que questionando, buscando e partilhando tal angústia, estarei fazendo algo. Desconfianças, perigos, falta de tradições não podem ser razões para renunciarmos à nossa capacidade de entender e encontrar caminhos para este buscar. Estes caminhos nos levam a Ousar em direção a mudanças na nossa essência. E, com certeza, isso não vai ocorrer a partir do simples uso de fármacos. É necessário resgatarmos a humanidade dentro de cada um de nós.
Desta forma, cuidar-se é, por exemplo, não se desumanizar frente ao garoto do semáforo, que realmente pode estar necessitado do simples auxílio. Não sei se dando esmolas, mas tornando-nos menos anestesiados frente à realidade, o que não deixa de ser também um estado de violência.
Cuidar-se é manter a identidade, cuidando em manter acesa a chama das nossas crenças e tradições. Cuidar-se é conspirar contra a esterilidade da cultura de massa imposta pela mídia “global” dominante. É conspirar por uma revolução invisível, mas forte, cujas câmeras sensacionalistas da televisão e da imprensa escrita não podem registrar. Cuidar-se é despertar do sonambulismo coletivo. É oferecer razões válidas de vida e esperança para as gerações vindouras, que a minha geração dos anos 60 e 70 acreditava, mas que ainda não vimos acontecer. Segundo A. Guidens, desprezar estes fatos é o que nos suscita um sentimento de desilusão e de descrença, fazendo com que, ao olhar para o futuro, sejamos assaltados por um imenso vazio, desconfiança e desânimo.
E estes sentimentos os Antidepressivos não curam.
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