Dr. Eliezer
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Nem todos são pacientes

Meu estado de estupor pelos últimos acontecimentos na área da saúde, vai me levar de médico a doente sem chance de cura, se continuar a ler o noticiário com tanta freqüência. Exercer a medicina e pensá-la criticamente gera crises. A medicina sonhada e a observada se chocam.

Neste fim de semana (O Estado de São Paulo,12/05/2007 pag.A25), lemos que o governo aprovou uma lei que dava as mulheres do meu Brasil, o direito de ser dispensada do trabalho por um dia por ano para fazer exames preventivos. Cita a nota “que ela terá direito de fazer a prevenção do câncer de colo uterino, de ovário, de mama e de pulmão, aids, osteoporose e endometriose previstos em programas do Ministério da Saúde neste glorioso dia. Um dia, em um ano, para fazer exames médicos?  Na mesma folha, na mesma página, uma notícia de que uma criança morreu porque a médica que a atendeu em alguns minutos, confundiu uma septicemia com uma gripe e a criança morreu três horas depois desta “consulta”. A médica foi condenada.

Nos serviços privados, públicos ou de convênios ocorre a medicina sem alma e impessoal. Burocratas e políticos decidem como as pessoas vão ter acesso aos médicos e como eles as atenderão.

Samuel Hahnemann, pai da Homeopatia escreveu em 1795, uma carta a um príncipe alemão que nos pode ser útil:
“Escolhei de preferência um médico que jamais se mostre grosseiro, que nunca se irrite, salvo à vista de uma injustiça; que não desdenhe de pessoa alguma, salvo dos lisonjeadores; que tenha poucos amigos, mas por amigos, homens de coração; que deixe aos que sofrem a liberdade de se lastimarem; que jamais emita uma opinião sem prévia reflexão; que prescreva poucos medicamentos, a maioria das vezes um único, e em substância; que viva modestamente e retirado, afastado do ruído da multidão; que não dissimule o mérito de seus confrades e não faça auto-elogio; enfim um amigo da ordem, da tranqüilidade, um homem de amor e de caridade.
Antes de escolherdes um médico, observai como ele se comporta com os doentes pobres e se, em seu gabinete, quando está só, se ocupa com trabalhos sérios”.

Em outro trecho da carta, o mestre nos diz da consulta medica:
"A anamnese caracteriza-se pela escuta atenta, interessada e sem julgamento de todo o relato do paciente. Deve ser registrado com a maior fidedignidade o discurso pessoal e particular daquele que é o dono do sofrimento. Só após concluída esta fase de relato espontâneo, deve o médico proceder a um interrogatório. Investigar sua história familiar, seus hábitos e condições de vida, sua história patológica pregressa. Finalmente, perguntas que buscam conhecer as condições atuais de funcionamento do organismo, como um todo (relação com clima, horários, sono, sede, desejos e aversões alimentares, sexualidade, suor...) e de cada parte (revisão de cada sistema e função)."
 
O exame físico e os exames complementares não devem ter sua importância subestimada. 
Esta deveria ser a norma. Assim deveria ser o médico e assim deveria ser a consulta. Não é mais esta realidade com raras exceções. Nossa atuação como médicos naufragados em um sistema econômico que determina como devemos atuar, nos impedem de cumprir com nossos ideais. Há médicos e médicos, mas cabe à sociedade proteger os que querem ser bons médicos.

Cabe também à sociedade fazer valer seus direitos de ter acesso a estes bons médicos como os descritos por Hahnemann em sua carta. Nosso governo com a lei aprovada pela Câmara, dá um péssimo exemplo ao subestimar o valor da consulta médica, dos exames preventivos e, pior ainda, da capacidade do sistema de saúde em realizar essa epopéia. O sistema de saúde que o governo oferece ao povo não tem nem alma, nem eficiência e muito menos respeito a medicina. É uma Torre de Babel onde uns fazem de conta que curam e os outros fazem de conta que se tratam.

“É tão importante conhecer a pessoa que tem a doença quanto conhecer a doença que a pessoa tem.”     William Osler

Uma mulher ter um dia só para cuidar de sua saúde, incluindo neste dia uma boa consulta, realizar exames de mamografia, Papanicolau, dosagem hormonal, densitometria óssea e voltar ao médico para receber os medicamentos e orientação necessária é no mínimo uma piada sem graça. Uma boa consulta deve levar no mínimo 40 minutos. Cada um destes exames, mesmo que realizados no mais rápido laboratório leva mais dois dias. Um dia para colhe-los, um dia para serem analisados, e mais algumas horas para um médico interpreta-los e então corrigir o que estiver errado.

Não são os exames e medicamentos prescritos que devem ser bons, mas o que deve ser boa é a consulta médica. A relação médico-paciente é a chave para um bom resultado terapêutico.
Entre a medicina ideal e a medicina possível  ainda há um enorme caminho a percorrer. Espero tentando me manter saudável que esta união ocorra. Que seja possível se ter a medicina ideal. E que o “dia dos exames” femininos dados pelo governo as mulheres, seja o dia da boa consulta pelo bom médico.

P.S. Os homens não tem que fazer exames, não vão ganhar o dia dos exames? Ou o deles será a Semana dos exames?