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A noite dos Médicos
- Oh! que formosa aparência tem a falsidade! (William Shakespeare - The Merchant of Venise, ato I - cena 3)
A cada 18 de outubro, o Dia dos Médicos se inicia a meia noite para os plantonistas dos corredores frios das Santas Casas empobrecidas dos sertões esquecidos, e termina na madrugada do dia 19, nos salões suntuosos dos grandes salões das cidades, onde a indústria farmacêutica comemora com os seus receitadores maiores, o dia de todos os médicos.
Entre todos eles, um único elo restou em comum. O Juramento de Hipócrates. De resto, tudo se trata de mundos distintos.
A noite de plantão de todas as jornadas do ano é o contato com o sofrimento, a doença, a morte e o desesperador sentimento de quem foi desamparado pelo sistema. Com o anúncio de que o SUS prepara-se para nos pagar R$ 10,00 reais por consulta.
De que, votada a CPMF que foi cobrada por anos para ajudar os enfermos e os médicos, acabou nas farras dos que detém o "puder". O "puder" de esquecer os que estão sofrendo nas noites e dias das enfermarias cheias de armários vazios de medicamentos, mas lotados de leitos detonados, ante-salas dos necrotérios, sem o conforto e a esperança de um tratamento humano para suas dores. O "puder" que os faz esquecer daqueles médicos sem poder de exercer a medicina sonhada nos bancos das faculdades. Aqueles a que só resta consolar com sua presença pelas madrugadas dos plantões das Santas(?) Casas(?), já que a tecnologia, os fármacos e a assistência digna só chega aos felizardos pela sorte.
Em 18 de Outubro, a Noite dos Médicos políticos de Brasília será regada a Champanhe e a Noite dos Médicos plantonistas dos pequenos hospitais continuará a ser de suor, sangue, lágrimas, gemidos e limitações.
Em mais um 18 de Outubro, a mídia faturará com as páginas de revistas e jornais com parabenizações piegas aos médicos, as estatísticas de mortalidade aumentarão, mas não serão noticias, e a falência do sistema de saúde passará em branco.
Os plantonistas dos Pronto-Socorros públicos passarão mais uma infernal noite de luta para a garantir a sua sobrevivência, no meio do grande risco de serem agredidos por insatisfeitos e truculentos brigões. Quando não assassinados na saída do hospital por aqueles mesmos a quem uma noite atenderão no plantão.
Mas continuemos, haverá um dia do médico e do paciente, quem sabe!!!
- Nós somos feitos do tecido de que são feitos os sonhos. (William Shakespeare - Dramaturgo)
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