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O doutor que fumava Continental sem filtro
Nasci de um parto muito difícil na cidade de Quatro Irmãos, no interior do Rio Grande do Sul. Minha cidade natal era uma colonização judaica, de aproximadamente duzentas famílias vindas da Europa, fugindo dos Progroms. Foram trazidos para o Brasil pela Jewish Colonization Association e instalados naquela região habitada por índios e caboclos, para que se dedicassem à agricultura.
Nesta cidadela entre outras obras como escola primária, sinagoga e estação de trem, construiu-se um bonito hospital feito com a madeira extraída da própria região. Alguns destes prédios encontram-se em pé e podem ser conhecidos no site da cidade, que hoje para meu orgulho, já está na Internet.
O médico da cidade era o Doutor Otto Goldberg, médico alemão contratado recém formado na Alemanha pela Jewish Colonization Association para dar assistência às famílias da cidade e da região. Clinico, cirurgião, parteiro e todas as subespecialidades criadas pelas necessidades, o Doutor Otto não tinha outros médicos para auxiliá-lo nas cirurgias. Aliás quando aqui chegou, as fazia sem ainda nem mesmo ter validado seu diploma alemão no Brasil. Para validá-lo ele teria de apreender o português, coisa que não era necessário para clinicar em Quatro Irmãos, onde todos falavam Idish, dialeto semelhante a língua germânica. Mas o fato de não ter diploma nacional, colocava Dr. Otto em pânico sempre que era obrigado a operar.
Quando um parto complicava-se muito, e em casos de desespero total, ele fazia uma cesárea, mas isto era uma rara exceção. Dona Herta, sua esposa que era enfermeira, dava os primeiros atendimentos ao recém nascido, que geralmente nascia muito mal, depois de horas de trabalhos de parto extenuantes. Mas para auxiliá-lo nas cesáreas era chamado o açougueiro da cidade, que era a segunda pessoa que mais entendia de carne e anatomia no local. De tanto auxiliar cirurgias de urgência como apendicectomias, redução de fraturas e outras calamidades, ele acabou apreendendo na prática com Dr. Otto a também auxiliá-lo nas cesáreas.
Minha mãe era dona de uma loja de secos e molhados chamada A Economia do Povo, onde Dr. Otto comprava seus cigarros Continental sem filtro, ou em ocasiões especiais comprava Hollywood, um pouco mais caro. Minha mãe já tinha dado muito trabalho ao Dr. Otto em seus três primeiros partos. Haviam sido partos “a ferro”, nome que se usava para dizer que se havia usado fórceps para tirar a criança. Como Dr. Otto reservava as cesáreas para os casos extremos, ele sempre usava muito bem os fórceps.
Como ele, a havia salvado com vida, em seus partos, minha mãe depois de uma longa insistência dela e de Dona Herta, conseguiram que ele parasse de fumar seus Continentais sem filtro. Durante anos, ele os substituiu por balas Neuguebauer que, pegava na “Economia do Povo” sem pagar e por conta dos partos.
Aos quarenta, minha mãe teve um atraso menstrual que o Dr. Otto diagnosticou na loja sem mesmo examiná-la como menopausa. Alguns meses depois a menopausa começou a mexer-se em seu ventre e ela o informou que por suas contas a menopausa nasceria no Natal de 1951. Acontece que eu só consegui nascer depois de alguns dias de sofrimento materno, estresse do médico e desespero do pai em um Shabat (sábado em Hebraico) da primeira semana de janeiro.
Como o açougueiro estava resguardando o dia santificado, nasci de um fórceps alto e tão difícil que meu pai me chamou de EL Azor, Eliezer, que significa com a ajuda de D us. Além de outras culpas que carrego na vida, fiquei sabendo que por minha causa ou melhor do meu parto, a Economia do Povo forneceu gratuitamente Continental sem filtro ao Dr. Otto Goldberg, até que já em Porto Alegre, muitos e muitos anos depois ele passou a fumar Hollywood com filtro para evitar cânceres. Menor a minha culpa.
Os pilares da medicina grega eram: o conhecimento da ciência médica, o conhecimento do meio ambiente de onde podem surgir as doenças e o auto-conhecimento. A atividade médica era arte. A arte de curar. E curar implica em curar primeiramente a si mesmo. Hipócrates dizia que “Quem quer que pretenda curar os males do mundo, sem antes ter curado em si mesmo estes males, somente multilplicará os males que se propõem a curar”.
A partir deste princípio e da minha história de vida (talvez até porque em parte por esta história, tornei-me médico e parteiro), após cada parto difícil, fumo um cigarro carregado de muita culpa. Não um Continental, porque nem sei se ele ainda é fabricado, mas um cigarro bem fininho. Com filtro. Fiquem tranquilos.
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