Dr. Eliezer
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Mulher 2008, a Medicina feminina e as Empresas “Iber Alles”

O ano que se encerra traz algumas reflexões necessárias a quem lidou com saúde feminina em 2007. O Congresso nacional aprovou a licença maternidade por 6 meses. Ponto positivo para as mulheres brasileiras. As empresas poderão ou não dar este benefício. Mesmo a quem teve um bebê prematuro ou com alguma doença que necessite da mãe até por muito mais que seis meses, a decisão na realidade ficará nas mãos de burocratas, que de instintos maternais, não possuem nenhum... Ponto negativo, pois estes buscam os resultados acima de tudo. O lucro “Iber Alles”*. E iber alles, já vimos no que dá.

O sistema médico da sua empresa impõe a suas funcionárias os ginecologistas de uma lista de credenciados em convênios? Eles são selecionados pela eficiência, carinho e dedicação a saúde feminina? Informação positiva Serasa. Eles são escolhidos porque aceitam tabelas de honorários médicos aviltantes? Lucro “Iber Alles”? Ponto negativo para a empresa.

A indústria farmacêutica lançou neste ano vários medicamentos para a supressão da menstruação e o tratamento da Síndrome Pré Menstrual. Ponto positivo para as mulheres brasileiras? Assim elas produzirão mais e se reproduzirão menos? O lucro “Iber Alles”.

A concepção social, científica e das próprias mulheres sobre a re-produção e o corpo feminino frente a estes fatos, necessita ser repensada. As preocupações e concepções sobre menstruação, gestação, parto, amamentação e menopausa por mais um ano foram lidadas com vistas em ideologias mercadológicas.  O preço da menstruação nacional ainda será uma das mais caras do mundo. (Ver minha Isca de 16/02/2007 no site do Luciano Pires).

A medicina feminina em 2007 persistiu em aceitar e tratar a fragmentação dos corpos e das pessoas femininas como sendo normais. A idéia de que se pode tratar do corpo sem cuidar dos aspectos sociais, psicológicos e existenciais do ser humano ainda prepondera.

O processo de industrialização da humanidade iniciado no século XIX, tornou a mulher uma operária tal qual os homens. Delineando que apesar de possuir um corpo e uma mente diferente, a mulher que trabalha deve esquecer estas diferenças em benefício do lucro. A operária que menstrua, engravida, amamenta e educa ainda deve servir a produção esquecendo da reprodução. Nesse novo contexto, os modelos médicos e sociais do corpo feminino como elementos “produtivos” passaram a ser fundamentais. A funcionalidade do corpo feminino, a necessidade de produtividade, e os diferentes contextos levaram a caracterizar-se a menopausa e a Síndrome Pré Menstrual como fatores debilitantes da mulher para o trabalho.

O controle desse “negócio” – o corpo feminino – é feito assim: - Quando eu não quero que esta “fábrica” reproduza, eu a torno estéril com o uso de contraceptivos hormonais. E quando eu quiser que ele fabrique ou melhor, produza um filho, eu induzo sua super produção e re-produção por estímulos também hormonais. Se estas ordens e contra-ordens afetarão sua subjetividade não importa.

Tanto a menstruação como a menopausa, são entendidas do ponto de vista do processo fabril como falhas da feminilidade. Seria mesmo a menstruação uma Sangria Inútil? Ver outros textos neste mesmo site. Será que a menstruação não deveria simplesmente  ser  pensada como um tipo de produção alternativa do ciclo feminino?  Isto é, em determinados momentos o ciclo pode produzir bebês, em outros, o sangue menstrual, ou ainda, como na menopausa, simplesmente não produzir nada, sem que deva existir necessariamente uma culpa por isto?

Haveria outras formas de conceitualizar o corpo e as experiências femininas que escapem das concepções capitalistas de produção e lucro? As concepções científicas sobre a reprodução são servis ao esquema de mercado. Numa nova perspectiva, da menstruação, da menopausa, do trabalho de parto, a amamentação, o nascimento e seus estágios não são estados pelos quais as mulheres “passam” em nome dos homens? Os fatos “de acontecerem com elas”, não são “ações que elas realizam sozinhas independentes dos homens”. Eles não querem filhos? Será que poderiam arcar com as conseqüências deste querer?

O fato de que a organização do tempo e do espaço de trabalho industrial em seu inicio não levava em conta as especificidades dessas funções corporais femininas indica que estes lugares foram feitos por e para os homens. Hoje é preciso mudá-los. O tempo e o espaço para menstruar, gestar, amamentar e educar devem ser redimensionados e os homens re-programados para a reprodução e não só a produção.  Re-apropriando-se do próprio corpo.

A possibilidade da união entre todas as mulheres, férteis, inférteis, heterossexuais ou homossexuais, ricas ou pobres tomando o poder assusta o mercado. O movimento feminista é subversivo a economia de mercado. Por isto está desaparecendo. A percepção da credibilidade e da competência profissional das mulheres assusta aos homens de curta visão. Se considerarmos o contexto brasileiro contemporâneo, em que se discute a licença maternidade, a “(in)utilidade” da menstruação, a necessidade de humanização do parto e a inclusão feminina, a “incorporação” de ideologias de visão mais claras é fundamental.

Bom novo ano de 2008, menos machista e com a feminilidade “Iber Alles”.*

*Acima de todos