Dr. Eliezer
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“Saúde pra dar e vender...”

Ainda que o gesto me doa, sigo carregando um ramo de sol.
Thiago de Mello

Como médico, sempre que ouço o tradicional hino da passagem do ano, quando chega na frase “Saúde para dar e vender”, fico “ligado”.  É bem possível que isto se possa realizar em todos os anos que vão nascer.

Dou um pouco de saúde quando tento ser saudável para mim e divido esta saúde com os outros. Os Isqueiros do Luciano Pires também o fazem em seu site. Poucos dão de graça e com tanta graça, saúde em forma de sabedoria quanto nosso poeta Rubem Alves: “Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas".

A cada dia que leio os outros isqueiros recebo saúde de graça. Saúde existencial. Os bem intencionados do mundo dão saúde de graça aos outros. Algumas pessoas (infelizmente não são muitas) dão inclusive a própria vida de graça, pela saúde dos semelhantes.

O que é difícil é a tal saúde para vender. Vender saúde, sobreviver desta venda e sentir-se reconfortado por este comércio é uma das equações mais difíceis de solucionar que encontrei no exercício de 30 anos de medicina. Quando o médico sai da faculdade e tenta projetar sua carreira, o idealismo nos dá a intensa força de que não vamos vender saúde, mas sim dar saúde a quem de nós necessitar. Aprendemos que não devemos receber salários ou pagamentos, mas sim honorários pela ação prestada. E honorários vem de honor, honra, aquilo que alguém vai nos honrar em troca de termos dado a esta pessoa de volta a sua saúde perdida ou aumentar a sua saúde desgastada.

Os anos novos vão mostrando que nossos honorários e nossa honra passam a ser comercializados de forma des(honrosa). Pelos governos corruptos, pelos planos de saúde(???), pelas instituições a que atendemos que intermedeiam a relação médico/seres humanos/pacientes/clientes, e agora por interesses das indústrias farmacêuticas, de equipamentos, etc.,etc...

Os novos anos acabam por mostrar que tudo isto só está se agravando. As próprias pessoas que precisam da saúde perdida têm dificuldades tanto para comprá-la como para recebê-la de graça. Quem tem pra dar e vender não é facilmente encontrável. Mesmo que ele queira dar e vender honestamente, o sistema nos tornou a todos, uns desconhecidos dos outros.

Com o passar dos velhos anos, os já também velhos médicos idealistas que querem dar a saúde, sentem dificuldade de encontrar nas multidões caóticas a quem oferecer. Creio que meus mestres tiveram mais facilidades em dar saúde. As Santas Casas eram mais santas. Os Hospitais de Caridade eram mais caridosos.  As Sociedades Beneficentes eram mais benéficas. Hoje, os burocratas que as administram têm muita dificuldade em tornar estas instituições em Santas, Caridosas ou Beneficientes. O lucro Iber alles.

Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde...???