Dr. Eliezer
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A Visão Psicossomática Aplciada a Obstetrícia

Pensar globalmente sempre, agir localmente, se necessário.

Introdução - O século XX assistiu a grandes avanços na área da obstetrícia tecnológica e nem tantos avanços assim na clinica obstétrica propriamente dita, no que se refere à relação médico-paciente.

Saímos de uma atuação tradicional que chegou até meados do século XlX onde a assistência obstétrica era reduzida às emergências dos partos. Até esta época o médico que resolvia os partos impossíveis de ser ultimados por curiosas ou mesmo obstetrizes era o obstetra. Na realidade este tocólogo nem sempre era um ginecólogo ou estudioso do mundo feminino. Era um médico generalista ou cirurgião que, pelo tempo de prática e a necessidade, acabava sendo obstetra também.

A medicina caminhava lentamente para sua fase científica, como temos hoje. E, neste lento caminhar, adotava o paradigma cartesiano que separava corpo da mente. Era uma medicina organicista, ou seja, o órgão doente era a causa do sofrimento humano. As especialidades médicas eram setorializados por esta visão. O gastroenterologista cuidava e operava estômagos, o cardiologista o coração e assim por diante. A visão do ser humano era por partes e a atuação médica por especialidades.

Para a mulher não grávida o ginecólogo e se gestante o obstetra. Hoje, estas especialidades: ginecologia e obstetrícia por sua vez, dividem-se em inúmeras sub especialidades. Os médicos que cuidam dos casais para quem a gravidez não ocorre são Esterileutas. Há obstetras para cada fase da gestação. Um ramo desta medicina altamente intervencionista e tecnológica, onde o obstetra além de prevenir as doenças maternas busca corrigir as doenças fetais intra-uterinamente, exigiu que se criasse a medicina fetal.

Assim, passamos de um ponto a outro, dos extremos da assistência médica à mulher e à gravidez. Do ginecólogo e obstetra generalista ao super especialista. Da assistência com visão do macro, exclusivamente para o micro. Da reprodução dada pela natureza para a fertilização assistida totalmente tecnológica. Mas sempre separando o físico do emocional, em relação às gestantes. Cada vez dividindo mais para entender muito de muito menos.

Mesmo com todos os avanços em alguns pontos, os resultados finais não estão sendo os esperados. Algumas doenças ainda são grandes desafios, independente da tecnologia usada. Situações como a doença hipertensiva da gestação, Depressão Pós Parto ou aborto, anorexia nervosa e outras dezenas de patologias de causas de fundo emocional, ainda hoje são incógnitas e desafiantes para o obstetra.

Os aspectos emocionais gerados por cada doença ou as doenças causadas por aspectos emocionais, não são ainda incorporadas à linguagem do cotidiano dos feminólogo. Transcender estas limitações, entre a tendência a cientificizar por demais o gerar e parir naturais e não exagerar em psicologizar a patologia, deve ser uma busca de todo tocólogo.
 
A atitude psicossomática frente ao ser humano, em que a atuação leve em conta o todo e não às partes é, atualmente, uma busca em todos campos da moderna medicina não só da obstetrícia. Se já não há mais dúvidas de que a total interligação dos fenômenos da esfera mental e emocional com os fenômenos da esfera física, interferem simultaneamente sobre o existir humanos, tornando-o mais ou menos saudáveis em função de sua variações. Mens sana, corpora sano deixa de ser um aforismo longínquo, para tornar-se uma busca diária, por médicos, seus clientes e a ciência como um todo.

A nova visão da realidade que hoje buscamos, baseia-se na consciência de que física, biologia, psicologia, cultura e sociologia entre outras ciências, não são nada mais do que interfaces articuladas do saber humano e que só são separáveis teoricamente para facilitar o estudo, pois na prática são todas aplicadas simultânea e ininterruptamente durante a atuação médica. É como se fosse uma grande teia da vida, em que todos os pontos estão interligados. E muitos apesar de auto-suficientes, são interdependentes. A esta visão sistêmica da vida, pode-se acrescentar uma dedicação maior a algum aspecto especifico, sem perder a visão do todo.

Em um momento inicial poder-se-ia ter a impressão de que a psicossomática enquanto conhecimento na medicina propõe, somente seria uns retomados do pensar a binômia saúde-adoecimento, corpo-mente indivisíveis, como fatos definitivos e só. Principalmente porque para alguns cientistas, os aspectos psíquicos podem ser mais importantes que os físicos ou para outros, que as questões sociais na gênese da patologia humana são o primordial. Esta simples psicologisação do pensar médico é tão superficial quanto a atitude anterior, de um pensar quase veterinário do ser humano.

Gravidez e sua assistência: Uma questão simples com vários aspectos complexos
O que se propõem com a atitude psicossomática na obstetrícia mais contemporaneamente é uma atitude holística e sistêmica, tendo como metas algumas ações praticas enumerada na seguinte ordem:

  • Concepção sistêmica e dinâmica da paciente grávida e seu universo. Cada ser humano vive em um sistema, interagindo com seu meio externo de acordo com sua condição individual. Nada pode ser isolado. Um ditado oriental diz que é tamanha a interligação de tudo e de todos no cosmo, que quando uma só folha cai de uma árvore, o universo todo se modifica. Para o feto, a gestante é o universo. Tudo que podemos desejar e fazer para que ela seja um universo adequado pode ser importante.
  • Somos o produto da somatória de nossa genética, biologia (SOMA *), nossa psico-história** (PSYQUE) e nossas metas existenciais. Vivemos dentro desta uma condição dinâmica, na teia da vida, que nos permite adoecer, curar-se e realizar-se, mesmo que com deficiências em cada um dos sistemas que nos compõem (genético, biológico, psíquico e ambiental). A vida intra-uterina ainda é um mistério que podemos desvendar, mas até que seja desvendado, é importante o respeito com o feto como um ser com sensações.
  • As atitudes terapêuticas são todas as ações que o médico faz para que o cliente seja saudável. E isto nem sempre quer dizer sempre medicar, no sentido estrito da palavra receitar remédio. Muitas vezes medicar é um escutar comprometido com o cliente. Pode ser um postar-se ao lado simplesmente. Neste ponto devemos lembrar que o médico ainda é o principal medicamento. Mas para que o médico seja terapêutico ele deve ser saudável. Lembrando Hipócrates, Pai da medicina e seu aforismo: médico, cura-te a ti mesmo, ou seja, ser um exemplo de saúde e não ser nocivo ao outrem é o primeiro passo da atitude terapêutica psicossomática. Muitas vezes o exemplo é tão ou mais importante quanto o conselho ou o fármaco. Podemos dizer que quanto mais limitada a ação dos medicamentos, maior deve ser a ação medicamentosa do médico. A melhor e se não a única maneira de fazer-se terapêutica é ser médico.
  • Utilizar a necessária terapia de forma sábia. Isto implica em adequar a terapêutica aos fatos individualizados de cada paciente. As ferramentas terapêuticas que se dispõe hoje são inúmeras. Vencer preconceitos para com as medicinas brandas pode ser sábio. Uma medicina branda será suficiente e ajudará ao seu paciente a curar-se. Ótimo. É necessário um fármaco ou uma cirurgia. Ótimo também. O importante é como a atitude terapêutica será exercida. O que a humanidade espera da medicina é uma forma humana de ser médico como a ela vai ser aplicado toda a tecnologia e os avanços da farmacologia. Não é a indústria farmacêutica e seus vultuosos lucros, o grande inimigo da medicina. É o encolhimento do médico como ser humano sábio e exemplo do que é saúde que esta abrindo espaço para a desumanizarão do gerar, parir e lactar humanos.
  • O carinho sóbrio do médico ainda é uma boa técnica terapêutica. Partejar é participar do segundo momento mais íntimo daquela mulher. Promover a humanização da obstetrícia, por momentos de partos seguros tecnicamente e afetuosos humanamente é ter atitude psicossomática.
  • Adoecer e curar-se são dinâmicas existenciais humanas dependentes de consciência. O que diferencia a reprodução animal e vegetal da reprodução humana é a consciência. Tomar um fármaco sem consciência, é perder parte do poder de auto-ajuda que cada organismo humano tem e que cada ser humano possui. Receitar simplesmente fármacos sem consciência, é comércio de drogas e não atitude terapêutica.
  • A aceitação e a promoção da co-responsabilidade pessoal do paciente em sua busca da manutenção e recuperação da saúde são mais do que uma necessidade. É uma obrigação que deve ser fomentada pelo médico. A atitude da cliente ao entrar no consultório do obstetra, e dizer: - Aqui está meu corpo doente, cure-o doutor! A responsabilidade do paciente no processo de cura e na promoção da saúde é vital.
  • Se for importante reconhecer que adoecemos por nossas emoções, é mais importante reconhecer que a atitude curativa mental é também parte de uma solução inteligente.

*Soma: do grego e que significa "corpo". Somática, o que é corporal.
**Psyche: do grego e que significa mente. "iatreia" também do grego, que significa cura e iatros que significa médico. Daí psiquiatria, como cura da mente.

A gestação consciente e o médico com visão sistêmica
A principal e mais importante atitude que o Obstetra Sistêmico com visão Psicossomática terá é a de conscientizar. A palavra "doutor" vem de "docere", ou seja, ensinar. Pré-natal sistêmico é ensinar a mãe a cuidar de si e do seu filho dentro de um processo dinâmico e consciente de reproduzir-se de forma integral e humana.

Algumas reflexões conjuntas podem dar o "caminho das pedras":

  • Que a gestante espera de nós como agentes de saúde que vamos ob stare, ou seja, estar ao lado.
  • O que ela espera de seu parceiro, e como vamos incentivar a paternidade consciente.
  • Como ela pretende cuidar de sua estética, nutrição e equilíbrio físico.
  • Que tipo de parto ela pretende buscar; em que maternidade sentir-se-a mais segura.
  • Como vai a sexualidade, os sonhos e expectativas.
  • Avaliar a contribuição relativa que sua vida emocional terá para a gênese de um eventual estado patológico na gravidez, parto e puerpério.
  • A cura pelo sistema corpo-mente será sempre que possível tentado antes de usar fármacos.

 

Pensar, sentir na gravidez, uma questão cibernética*

*Cibernética vem do grego kybernan, governar. Na psicossomática, este conceito funciona como uma identificação do que é o fato existencial que norteia os fatos de determinado processo.

O conceito de cibernética aplica-se bem para esclarecer a psicossomática gestacional. Durante este período da vida de uma mulher, a vinda de um bebê é o fato que a governa. A maioria de suas ações é em função da espera do bebê. Sua química atua somente neste sentido. Cada célula de seu corpo é influenciada pala maré gravídica. A placenta e seus hormônios, a governam bioquimicamente. Os movimentos fetais intra-uterinos determinam uma comunicação transcendental entre ela e seu concepto, dificílima de ser explicada pela ciência.

Uma altivez toma conta do ser feminino grávido, dando a ela um ar de mistério para além da feminilidade. O fenômeno gravidez, rege, governa e redireciona a vida da mulher. A gestação é o timoneiro que a conduz. Ela pensa grávida e o pensar e sentir grávidos não se explicam racionalmente. A pensar grávida é único e diferente para cada mulher.

Todos nós pensamos através de imagens mentais e de diálogos internos. Ambos acoplados a sensações e emoções, que por sua vez atingem o corpo todo como uma maré química, interferindo no funcionamento dos hormônios, imunidade, digestão, circulação etc.

Nossos pensamentos e impressões são geralmente ecos do passado e projeções que fazemos do futuro. Na gestante o presente é sempre uma mutação. Seu corpo modifica-se semanalmente. Seios crescem, ventre torna-se proeminente. Emoções e sentimentos acontecem no PRESENTE da grávida o tempo todo, e cada momento seu pensamento vai para o futuro, para o parto e seus sustos.

MAS sua imagem de si mesmo é dependente das opiniões dos outros.
- Sua barriga está tão pequena... ou tão grande... ou outros "eu achismos"
Seu bebê pode estar movimentando-se ritmadamente e a toda hora, mas para a gestante isto ainda é insuficiente para transmitir segurança.

O AQUI E AGORA de uma grávida é sempre um misto de mistério e esperanças. É onde podemos agir com ela é no presente! De cada consulta pré-natal. A cada telefonema na madrugada dando-lhe consciência.

Aqui e agora é onde e quando estamos por inteiro: Físico, psíquico, emoção e espírito. AQUI E AGORA!