Assim como a industrialização e a urbanização mudaram o ritmo e as feições da vida no século XIX, as linguagens midiáticas alteraram decisivamente os modos de vermos as formas estéticas femininas. Nos dias atuais, a cultura baseada na imagem de meios como a televisão, os computadores, a publicidade, criaram uma demanda na medicina de “tratamentos” cirúrgicos para “adequar” a mulher ao modelo midiático. Assim resultam algumas mulheres oferecidas nas imagens que como feminólogos assistimos incrédulos.
Em seu maravilhoso poema “Sina” , Maria do Carmo Lobato nos fornece um caminho poético para entendermos o caos que se instala.
Nasci
Com a predestinação
de ser uma mulher perdida
E cedo me perdi,
E fiquei perdida,
Virando e revirando
Um mundo muito mais
Perdido do que eu,
Exatamente por estar
Com a plena certeza
De me ter encontrado...
Por conservadorismo assumido, temo quando se usa o bisturi como ferramenta para aprofundar o vazio humano através da estética feminina. O mais alto objetivo da medicina é a cura. E a cirurgia estética como objeto de consumo, cura a quê?Freqüentando congressos de Ginecologia, não vejo entre os colegas uma curiosidade para além das doenças que acometem os órgãos reprodutores femininos. Infelizmente a ginecologia clássica não trata da alma da mulher por haver nascido em berço de cirurgiões também.
Vinicius de Moraes em Receita de mulher nos dá algumas dicas de como seria belo se conseguíssemos ajudar as mulheres do Século XXI a inspirarem-se mais...não por meios cirúrgicos
...e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Não sei o que se apresentam nos congressos de cirurgia plásticas, mas o que se observa de seus resultados é uma estética onde a beleza física beira até a feiúra. O mesmo Vinicius de Morais, coloca as coisas no seu devido lugar:
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, ...
É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora....
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado......
Quanto as lipoaspirações, Vinicius afirmaria que o que estamos sugando nos lipoaspiradiores é (quando sem exagero) parte das curvas da beleza ...
Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Mas Vinicius não era médico e eu não sou poeta. Que pena!