Dr. Eliezer
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O Atacama de cada um ou o Everest do Luciano Pires foi o Meu Atacama

Minha MANEIRA DE ESTAR NO MUNDO foi e é SENDO MÉDICO. Para isto é preciso conhecer bem a si mesmo e ao outro. Em meu caso a outra, por ser médico de mulheres preferencialmente. Mas dentro de minha incompletude humana um sonho me perseguia.  Ser ninguém por algum tempo... Um texto me estimulava:

"Pode chegar uma hora em que o homem se canse de todos os círculos sociais, da incessante e indigna competição profissional e do mundo dos negócios, e deseje afastar-se de tudo isso - uma hora em que ele comece a ver através das futilidades, superficialidades e estupidez que lhe são próprias. Que outro recurso podem tentar ter, depois de tentar os caminhos comuns - bebida, sexo, drogas ou religião -, além da busca?" - Paul Brunton -A Busca

Como o deserto de Atacama parecia-me uma possibilidade de isolamento geográfico e humano, projetei uma viagem para o chamado Norte Chico chileno. Em Antofagasta aluguei um 4X4 e a partir daí viajei no deserto até o Vale de
La Muerte.  
Além da experiência da solidão e isolamento do deserto, fui a uma busca de mim mesmo. Um desejo de testar as minhas teorias de ajudador. Algo que no conceito do livro de Bel Cezar “Morrer não se improvisa”(Ed. Gaia,2001) escreve na página 31: “A morte nos faz pensar na vida. Se dermos um significado a nossa morte, encontraremos uma nova perspectiva para nossa existência.” Não que eu queira morrer antes do tempo, mas sinto que viver protegido e principalmente ajudando aos nossos doentes a mais viver, nos aumenta a ilusão de onipotência. Ao arriscar a permanência, ‘a valorizamos mais, por sabê-la frágil.
O POVO ATACAMENHO que tive a oportunidade de conhecer de perto e a muitas cores, tem uma vida muito distante da realidade globeleza e próxima de um modelo Século XIX. A sua sobrevivência nos Oasis, como o de Toconao, que recomendo a todos conhecer com calma, segue uma rotina :cuidar muito bem do pouquíssimo que se tem. Uma campesina deste Oasis que ensinou-me a mascar coca, me disse a maior lição que deveria ser apreendida pelos povos não desérticos, mas que um dia o seremos todos: “Quando não se preserva o bosque, as palavras de um povo perdem o sentido”




Voltei do Atacama com o deserto em minha alma.