Dr. Eliezer
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A quadrúpede

Não vou citar o nome do lugarejo onde estes fatos se passaram. Primeiro para não ferir a honra dos personagens já mortos e segundo para proteger a saúde dos que ainda estão vivos.

As homenagens ao famoso Seu Dito Coveiro que completaria 80 anos de vida e 65 anos de profissão de enterrador oficial,  foram marcadas dentro da semana comemorativa ao aniversario do segundo centenário da cidade. A cidade nascera numa antiga fazenda da região da  Serra da Mantiqueira. Tão perto do céu que dela se dizia que “Um passinho a mais se chegou a Minas Gerais”.

Na tarde de sábado, praça da matriz lotada. Os discursos em homenagem ao nobre funcionário público se sucediam. Elogios como o incansável, que nunca se aposentara que já havia enterrado os mais importantes cadáveres produzidos naquela cidade, assim como os desconhecidos que a escolhiam para ali morrer e serem enterrado aos cuidados de Seu Dito. E aqueles humildes que nem podiam escolher onde e por quem serem encovados, mas que o bom “chefe dos cerimoniais fúnebres” como o nomeou o prefeito, os acomodavam com o mesmo carinho que dedicava aos ilustres. Mais contou o prefeito: Seu Dito nunca deixou alguém ser enterrado, fosse rico ou pobre sem um discurso de consolo. Podia o Padre rezar para encomendar a alma, podia os políticos fazer comício em cima do defunto, mas não podia faltar a fala de consolo do coveiro.  E a cada elogio ao morto, Seu Dito cruzava os dedos fazendo figa por não confiar em políticos.

Finalmente discursou a tataraneta do coronel que fundara a cidade no século retrasado: Dona Santa inclusive morava no casarão sede original da fazenda, ao lado do qual eram enterrados os primeiros moradores daquelas plagas. Inclusive o traste de seu ex-marido. Cafajeste conhecido de longa data falecera de cirrose hepática por tanto beber em cabarés da região. Conquistara (segundo Dona Santa em seu discurso) em vida a simpatia de todos “pinguços e levianas” e o ódio de todos os “decentes” que o cercaram. Com voz veemente a viúva vociferou:

- E pra maior segurança de que ele não mais aprontaria nada, encomendei a Seu Dito uma cova de vinte um parmos de fundura... Coisa que este verdadeiro artista em catacumbas me ofereceu como persente. Seu Dito me fez lembrar que todo domingo eu ia com o “mardito” leva flores no cemitério. E que na poeira da estrada que nós passávamos ficavam as 4 marcas de nosso pisar. Ele sempre na frente e eu mais pra traz. Anos a fio... As quatro pisadas dos sapatos viraram uma só depois que sai do cemitério e d`ele enterrado na cova de vinte um parmos. No dia do enterro seu dito fez um discurso de consolação contando uma parábola chamada Pegadas na Areia. Falava de um indivíduo que sonhara que andava com o Cristo na praia e que em algumas ocasiões só via duas pegadas de passos na areia. E que nestas ocasiões ele interpretara que o Cristo o carregara nos braços durante suas crises na vida. Palavras do Seu Dito que ele atribuía ao Santo:

Nas horas da tua prova e do teu sofrimento.
Quando vistes na areia, apenas um par de pegadas
Foi exatamente aí, que eu nos braços te carreguei.

Bem, Seu Dito, continuou Dona Santa em seu discurso: eu quero lhe dizer hoje que quando eu vi as duas pegadas minhas na areia depois do enterro é que eu compreendi que antes havia quatro porque eu era uma quadrúpede quando estava com aquele caipora. Agora sim eu ando sobre os meus dois próprios pés sem aquele vagabundo que ia  era atrás de mim pra me enrabar mais um pouco.

A partir deste dia a cidadezinha no pé do morro nunca mais foi a mesma.