Dr. Eliezer
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Custos menstruais

 

A ciência, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com quanto esforço dado ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
Fernando Pessoa, 4-10-193



Os custos menstruais necessitam ser melhores compreendidos e sua abordagem pela sociedade em geral ser de maior consciência. Dentro da classe medica a polemica se instalou há alguns anos. Sobre a validade ou não de se suspender o fluxo menstrual, sempre me posicionei de forma muito criticamente contra. Geralmente vejo nestas iniciativas, interesses escusos.
Gostaria de aproveitar esta oportunidade que o Luciano Pires me oferece para que pensemos juntos e criativamente. No inicio do governo Lula tentei levar ao novo governo, como propostas à fome zero, as considerações que lhes exponho agora. Nunca houve qualquer sinal de terem sido levadas em conta. Ou a tese é inútil e devo esquecer, talvez outras pessoas podem melhorá-la, ou inútil é o governo zero sem fome.
Seriam inicialmente oportunas algumas reflexões ligando a menstruação e a fome nas crianças do Brasil, numa visão medica do problema. É que nunca as mulheres menstruaram tanto quanto elas menstruam hoje, nunca pagaram tão caro por menstruar como hoje e nunca os médicos opinaram tanto sobre assunto tão intimo feminino. E nunca os detentores dos monopólios dos absorventes faturaram tanto com o sangue feminino.
 A primeira menstruação (menarca) ocorria em nossas ancestrais até o século 19 somente por volta dos 17 anos.Portanto as mulheres dos séculos passados não menstruavam tanto ou o faziam bem  menos vezes que as jovens atuais. Por motivos variados, mas principalmente por fatores culturais e econômicos, ocorreu uma revolução hormonal feminina acompanhando os movimentos feministas do inicio do século passado. A cada geração as mulheres passaram a menstruar pela primeira vez  um ano mais cedo ,estando a menarca atualmente aos 11 anos em media. Prevê-se que em 2050 estarão menstruando meninas de 9 anos.
  Como cada mulher tinha em media 6 filhos e os amamentava por 2 anos , nossas bisavos só menstruavam miseras 30 a 40  perdas sanguineas  em toda sua vida. Vida esta que tinha uma expectativa de durar apenas 45 anos, por volta da época da  revolução industrial . E como ainda não haviam absorventes como os comercializados hoje, estes fluxos eram recolhidos em toalhinhas laváveis que custavam poucos milreis (não confunda com mil reais, é milréis mesmo).
Hoje uma mulher vive  quase 75 anos, menstrua até os 50 anos em media, 400 vezes na vida e tem 2 filhos aos  quais amamenta por 2 meses, quando o faz.
As dificuldades econômicas relacionadas com seu sangramento mensal surgiram quando o fluxo sanguíneo mensal passou a ser feita em objetos absorventes criados  pela sociedade  de consumo do primeiro mundo. No ocidente este habito higiênico foi tornado uma constante em quase todas camadas sociais. O  consumo de absorventes passou a ser feito por quem tem  salários mas que são realmente mínimos (a não ser que ela se eleja a algum cargo político), e seu  ciclo menstrual que não é tão mínimo assim, consome parte importante de seus ganhos.
Menstruando o pão nosso de cada dia
Em uma análise bastante simples e superficial podemos afirmar que durante sua fase de mênstruo, as brasileiras de todas as classes sociais  encharcam com o sangue nacional, dois pacotes de absorventes com nomes não tão nacionais como Modess, Intimus, Care free e outros mais. Segundo a revista Exame de 27 de novembro de 2002, o consumo de absorventes que era de 13 unidades por habitante em 1994 , foi de 23 por habitante em 2001.
Ou seja 85,9% da população feminina, assalariada minimamente, usa 2 pacotes  de absorventes higiênicos por mês ,  e  que para serem  fabricados na Pátria Amada (pasmem)  paga-se altos royalties  para os países que detem seu monopólio e  patentes...
Nas pequenas farmácias do nosso sertão, nos mega supermercados ao lado das nossas favelas ou nos shopings das zonas sul das grandes capitais, eles custam em media 3,00 reais, ou seja, quase um dólar e meio por pacote. Usando  dois pacotes por ciclo, todo mês, doze vezes ao ano, independente da sua classe social em  que se encontra é uma fonte de empobrecimento familiar.
Com o fluxo menstrual se escoam também, nutrientes adquiridos a preço de ouro nas mesmas prateleiras dos super mercados. Nutrientes estes que para serem repostos com fuba e feijão, custam aproximadamente mais quatro reais ao bolso de cada mulher menstruadora, gasto que os homens trabalhadores  não tem.
Roupas especiais para aqueles dias, banhos que gastam energia elétrica, água, mais sabonetes durante a menstruação fisiológica, elevam o custo de cada perda, para mais de 17 reais. Isto se não forem necessários medicamentos para aliviar as cólicas menstruais ou a Tensão Pré Menstrual que 42% das mulheres sentem.
 Mães de cada vez menos filhos, as brasileiras que ganham salários mínimos e menstruam todo mês, usando cerca de 10 % do seu mínimo salário mínimo em sua menstruação que nem sempre  é tão mínima assim. Estes 10% do seus salários gastos para menstruar, são retirados do orçamento domestico e portanto  compram menos comidas para seus filhos. Não, não é preciso reler a frase, por mais que possa lhe  parecer absurda .
Ou seja, para  menstruar a mulher brasileira precisa tirar do dinheiro que compraria comida para seus filhos  17 sangrentos reais. Isto se não tiver em casa uma filha com mais de 11 anos ou pior ainda, duas filhas, o que  triplicaria os gastos com fluxo menstrual da casa . Qualquer alto executivo masculino de nosso novo governo, que encontrasse em seu orçamento mensal um item que tirasse 10% do seu salário que não é mínimo, para comprar papel higiênico, por exemplo, acharia um jeito fácil para não mais pagar por si mesmo este item, criando um subsidio a higiene masculina intestinal que seria  pago pelo Sistema de (sic)Saúde ou pelo Orçamento do Congresso Nacional. Ou não mais evacuaria!!
Custos Mens(ais)truais e a fome
 Uma garota de 11 anos ainda não ganha por mês 17 reais que é quanto lhe custa cada menstruação. Portanto sua mãe é quem arca com este ônus. Se ambas menstruarem no mesmo dia do mês(a menstruação de uma influencia o dia do ciclo da outra) nesta família o custo mensal da menstruação é dobrado ou seja 34 reais. Tirados da alimentação da família toda. Seriam 17 kilos de feijão que iriam para o lixo.
Não queremos aqui reforçar a inútil polemica, se a menstruação representa ou não uma função fisiológica útil ou não. Não há inteligência nenhuma, em tentar abolir a menstruação das saudáveis consumidoras televisivas brasileiras com caríssimos hormônios injetados ou ingeridos.Isto seria gastar milhões em medicamentos para inibir a menstruação, o que só trocaria seis por meia dúzia e tiraria o item do orçamento de gastos com higiene, para a coluna dos gastos com fármacos. Das fabricas de absorventes internacionais para a conta da mega industria farmacêutica, nada muda.
E la nave vá...!!!  Continuaremos ...