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É parte da cura, confiar Naquele que cura
Não há como servir-se da medicina como paciente e nem como exercê-la sem uma profunda indignação para com a política. As injustiças do sistema político/econômico para com o sistema de saúde chegaram ao nível de perversidade mais desumano de sua história.
Não quero aqui dizer que os médicos sejam os perfeitos ou somente vítimas do status. Nossa conivência e alienação contribuíram para nossa orfandade. Mas posso afirmar, depois de exercer por 30 anos a medicina, que se na classe política houvesse a mesma porcentagem de seres idealistas que há entre os médicos, muita gente sofreria menos. O dinheiro que se nega ao sistema de saúde e se perde nas corrupções do sistema político faz muita falta a esses, mesmo que poucos, médicos idealistas.
Nossa população carente e agora até as camadas menos carentes, relacionam-se com um sistema de saúde nada saudável. Por um lado uma invasão de burocratas (de)formados em faculdades negligentes para com o fator humanidade, gerindo sistemas de saúde como se tratassem das fábricas de adubo.
Na esfera governamental ou no sistema de planos de saúde o que assistimos é uma Torre de Babel. Com a desculpa de aperfeiçoar gastos, reduzir custos e otimizar o tempo, desumanizaram a arte da cura. O paciente virou um consumidor, os médicos prestadores de serviço e os outros atores, do ato de cuidar, meros assalariados sem quaisquer ideais. A enfermagem, fisioterapeutas e mais um anônimo exército de curadores, vítimas tanto quanto os pacientes, de burocracias que as afastam de seus nobres deveres e minam suas carreiras e ideais com rotinas telecomandadas pela perestroika.
Não se pode falar dos pacientes como pessoas, a não ser que questionemos os burocratas da área de saúde como pessoas também. O Pai da Medicina ocidental foi Hipócrates, mas a mãe foi a Compaixão. Urge que os políticos, burocratas, médicos e os pacientes não se tornem órfãos desta genética.
Nos últimos meses perdi pessoas queridas, passei de curador a paciente, vi o outro lado das coisas bonitas da medicina e da política. O paciente como pessoa e a pessoa como paciente necessitam muito se indignar. O abismo entre o humano e o desumano acabou. Não há mais nada de humano no Sistema de Saúde. A burocracia e a tecnologia venceram, e são madrastas.
A compaixão não é mais a mãe dos médicos e seus colaboradores. Estamos todos órfãos. Que se dirá da classe política que comanda os orçamentos e as diretrizes de como se exerce a arte de curar? Mas estes já eram párias ao nascerem.
Os trabalhadores das ciências biomédicas não têm como resolver a estas questões por si mesmo. Eles dependem da humanidade que não nasce em ninguém, mas que todos podemos desenvolver.
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