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Insatisfação Corporal: uma vertente para a anorexia e bulimia - Marilene Damaso de Oliveira
Beleza se põe à mesa sobretudo em nossos tempos. Na modernidade beleza e feiúra são fenômenos sociais da maior importância(1). Nas últimas décadas, há uma imposição sócio-cultural que atinge principalmente as mulheres. Trata-se de um padrão tirânico que rege a vida de muitas jovens influenciadas de forma marcante pelos valores estéticos regentes. As mulheres jovens mostram-se mais vulneráveis e buscam incansavelmente o corpo esbelto da atualidade. A auto-crítica em relação ao corpo tornou-se uma constante no discurso de muitas adolescentes e uma parcela destas revela uma preocupação exagerada com a imagem do corpo(2). Alcançar a beleza magra é uma meta para a maioria das mulheres e um imperativo para muitas meninas.
No culto ao corpo perfeito habita um desejo que é sempre frustrado. Primeiro pela própria impossibilidade biológica, depois pela idealização que por principio é inalcançável, e também pela dificuldade em lidar com a paradoxal sedução aos prazeres da mesa. O resultado é que a grande maioria das mulheres em nossa sociedade está insatisfeita com o próprio corpo e muitas fazem um demasiado investimento em intervenções de efeito estético(3). Estas mulheres lançam um olhar cruel sobre o corpo, percebido como gordo, feio, rejeitável e inaceitável. Algumas mais vulneráveis, na trajetória de busca da imagem ideal e para elevar a auto-estima, acabam desenvolvendo um transtorno alimentar.
A insatisfação com o próprio corpo pode consistir o ponto inaugural para a evolução da Anorexia Nervosa e da Bulimia Nervosa. Também, é um sentimento expresso claramente por pessoas com compulsão alimentar periódica. O fator sociocultural que dita o padrão estético corporal, em interação com outros fatores -vulnerabilidade genética, psicopatologia familiar e experiências pessoais -, constituem uma força capaz de desenvolver transtorno alimentar(4).
Na Anorexia Nervosa, a pessoa tem comportamentos que visam a perda de peso e sua manutenção, movida por um medo exagerado de engordar. A pessoa pode se recusar a comer e atingir um peso muito baixo, podendo chegar a um quadro de inanição. Além da distorção da imagem corporal, há neste diagnóstico um distúrbio endócrino caracterizado pela ausência do ciclo menstrual. A auto-avaliação dessas pessoas é excessivamente centrada no corpo, em sua forma e peso.
Já na Bulimia Nervosa a pessoa apresenta um impulso irresistível de comer excessivamente, seguido de comportamentos que têm a função de evitar o efeito de engordar: vômitos auto-induzidos e/ou abuso de laxantes e diuréticos, exercícios exagerados, jejuns prolongados. O medo de engordar acaba por aprisionar a pessoa num recorrente ciclo bulímico, cujo percurso envolve a comilança, culpa e purgação.
Estes transtornos alimentares, assim como o compulsão alimentar periódico, têm atingido um número cada vez maior de pessoas nas últimas décadas, exigindo um tratamento especializado já que a saúde física e psíquica são afetadas. Dada a complexidade das manifestações clínicas destes distúrbios, o recomendado é o atendimento multidisciplinar, com cuidados médicos, psiquiátricos, psicológicos e nutricionais. A dimensão psicológica do tratamento é fundamental na medida em que centra suas intervenções nos conflitos e afetos ao redor de eixo sujeito-corpo-comida. A psicoterapia psicodinâmica ajuda a desvelar o que levou na história do sujeito à direção da idealização da imagem corporal(5); contribui para compreender a comunicação simbólica do sintoma,favorecendo entendimento sobre o significado do alimento na vida da pessoa(6).
Na clínica das patologias alimentares a função do analista implica em acolher o sujeito com a sua dor psíquica , e ajudá-lo a encontrar um lugar mais confortável dentro de si e na relação com o o mundo . Tal sofrimento psíquico, segundo Freire,está associado a impossibilidade de esconder a sua ferida narcísica. Estes pacientes sentem-se muito expostos em suas imperfeições que se expressam na forma corporal e mobilizam vergonha e humilhação. Aqui reside um profundo medo de não ser a causa do interesse dos outros (5). Neste sentido ,torna-se meta terapêutica o trabalho com o desenvolvimento da identidade, fortalecendo o frágil ego para torná-lo capaz de reconhecer e aceitar as rejeições, faltas e frustrações inerentes a vida.
Referências: 1 - Lypovetsky, G. A Terceira Mulher: permanência e revolução do feminino. São Paulo. Companhia das Letras, 2000 2 - Ramalho A, Oliveira MD, Borges M B, Palavras M, Nunes P, Sampaio S. A imagem corporal na adolescência, Rev.Junguiana, vol 25,133-142, 2007 3 - Pinhas L, Torner BB, Ali A, GarfinKel PE, Stukless N. The effects of the ideal of female beauty on mood and body satisfaction. In J Eat Disord 1999;25(2):223-6 4 - Garner, D.M. Pathogenisis of Anorexia Nervosa. Lancet. 1993; 41(26): 1631-4 5 - Costa J F, O Vestígio e a Aura - corpo e consumo na moral do espetáculo. RJ, Ed Garamond Ltda., 2004 6 - Gorgati SB, Holcberg A , Oliveira, MD A abordagem psicodinâmica no tratamento dos transtornos alimentares - Rev Brás Psiquiatric 2002;24 (Supl III): 44
Marilene Damaso de Oliveira Psicóloga CRP 02832/06; Mestre em Psicologia da Saúde - UMESP; Membro Cofundador do PROATA - Programa de Orientação e Assistência aos T. Alimentares/UNIFESP/EPM; Participante do Núcleo de Estudo e Pesquisa – BACO/SBPA; Coordenadora do APTA - Assistência Psicológica ao T. Alimentares; Autora de diversos artigos da área. Fones: (11) 5056 0818 - (11) 3493 9877 maridamaso@uol.com.br Saiba mais: www.aptapsi.com.br
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